Clima, renda, sucessão familiar e rotina de trabalho estão entre os fatores que podem pesar sobre agricultores familiares; psicóloga Gabriela Demboski fala sobre sinais de alerta, prevenção e busca por ajuda

Falar sobre saúde mental entre agricultores familiares exige olhar para uma rotina que tem características próprias. O trabalho está dentro de casa, não se encerra necessariamente ao fim do expediente e depende de fatores que o agricultor não consegue controlar, como chuva, estiagem, granizo e outras condições climáticas. A renda de toda a família também costuma estar vinculada à propriedade. Quando uma safra é comprometida, portanto, o impacto pode ultrapassar a produção e chegar às relações familiares, aos projetos para o futuro e à própria percepção de segurança.
Para a FETRAF-RS, que representa agricultores familiares no Rio Grande do Sul, discutir saúde mental também significa olhar para essas condições concretas da vida e do trabalho no campo. No Setembro Amarelo, mês dedicado à conscientização sobre saúde mental e à prevenção do suicídio, a entidade chama atenção para a necessidade de que esse debate considere as particularidades de quem vive da agricultura familiar e das comunidades rurais. A psicóloga Gabriela Demboski, que é mestre em Psicologia e tem ligação familiar com a agricultura familiar, explica que o sofrimento precisa ser compreendido dentro da realidade em que cada pessoa vive.
“Quando a gente fala de saúde mental, sempre olha para o contexto que aquela pessoa está inserida. Uma pessoa que está na agricultura familiar tem suas particularidades”, afirma. Entre elas está a chamada ansiedade climática. Para quem depende da produção, acompanhar a previsão do tempo não é apenas uma questão de planejamento: significa lidar constantemente com a possibilidade de perdas que não podem ser evitadas ou controladas. “A gente não sabe se vai vir aquele granizo fora de época, se vai vir uma chuva. Há previsões, mas a gente não tem certeza. E não tem como controlar”, observa Gabriela.
A preocupação também pode alcançar a sucessão familiar. A saída dos filhos da propriedade, seja para estudar, trabalhar ou construir a vida na cidade, pode representar para os pais a incerteza sobre o futuro da produção e sobre a continuidade de uma trajetória construída ao longo de décadas. Gabriela conta que já ouviu esse relato em rodas de conversa com agricultores e destaca que a propriedade não representa apenas um patrimônio. “Não é só uma propriedade, não é só uma terra, não é só uma casa, é um valor emocional que tem lá”, afirma.
Essa dimensão emocional se soma ao fato de que, na agricultura familiar, a renda de uma propriedade muitas vezes sustenta toda a família. Quando uma produção é afetada, o problema não fica restrito à atividade econômica. Pode atingir os planos familiares, a segurança financeira e as perspectivas para o futuro. Por isso, situações de perda, endividamento, dificuldades de comercialização ou incerteza sobre a produção podem pesar sobre a saúde emocional.
Outro aspecto é a própria organização do trabalho. Na agricultura familiar, não existe necessariamente uma separação entre casa e trabalho. A propriedade é, ao mesmo tempo, espaço de moradia, produção e convivência familiar. “Você vive o trabalho todo dia, a todo momento. Sempre tem alguma coisa a fazer ou outra ali na propriedade”, explica a psicóloga.
Por isso, Gabriela chama atenção para a necessidade de criar momentos de pausa, mesmo quando não é possível simplesmente se afastar do trabalho por um dia inteiro ou por um fim de semana. Um chimarrão, uma refeição em família, uma conversa, a participação em uma atividade da comunidade ou uma caminhada podem ser formas de interromper o ritmo contínuo das tarefas. “A gente precisa frear”, resume.
A convivência comunitária também tem papel importante nesse processo. Festas de comunidade, encontros com vizinhos, atividades de lazer e momentos de conversa fazem parte da rotina de muitas localidades rurais e podem ajudar a manter vínculos. Segundo Gabriela, estudos apontam a vida em comunidade como um fator de proteção para a saúde mental. Por isso, deixar de participar de atividades que antes faziam parte da rotina pode ser justamente um dos sinais que merecem atenção.
Sinais que merecem atenção
A mudança de comportamento é um dos principais alertas. Uma pessoa que gostava de sair, visitar familiares, participar da comunidade ou praticar alguma atividade pode começar a se isolar. O sinal ganha importância quando deixa de ser algo pontual e passa a se repetir. Irritabilidade, alterações no sono e no apetite, desânimo persistente e frases como “dá vontade de desistir de tudo” ou “isso não faz mais sentido” também devem ser observados.
Nessas situações, a orientação é não esperar que o sofrimento se agrave. “A gente precisa sentar, conversar com essa pessoa, com calma, perguntar o que está acontecendo, se ela precisa de ajuda, estar disponível, estar aberto para ouvir, sem julgar”, orienta Gabriela.
O acolhimento também exige cuidado com aquilo que é dito. Frases que minimizam a situação ou atribuem o sofrimento à falta de fé, de força ou de ocupação podem afastar a pessoa da busca por ajuda. “Não é falta de Deus, não é falta de ter o que fazer. É uma condição psíquica que precisa ser cuidada, que precisa ser olhada e que precisa ser tratada”, afirma.
Para a psicóloga, ouvir é muitas vezes mais importante do que tentar encontrar imediatamente uma solução. “A pessoa não precisa que a gente faça uma palestra para ela. Ela precisa ser ouvida.” Também é necessário compreender que pessoas diferentes podem reagir de maneiras distintas diante de uma mesma situação. Uma perda na produção, uma estiagem ou uma chuva intensa podem provocar sentimentos diferentes em cada indivíduo.
Outro ponto destacado por Gabriela é a dificuldade que algumas pessoas têm de reconhecer que precisam de ajuda. No caso dos homens, ela observa que ainda existe resistência em falar sobre sentimentos e procurar atendimento. A ideia de que pedir ajuda seria sinal de fraqueza pode atrasar a busca por cuidado. “Reconhecer que a gente precisa de ajuda naquele momento é um sinal de força, é um sinal de coragem, é um sinal de cuidado conosco mesmo”, afirma.
A busca por atendimento não precisa esperar o surgimento de um transtorno. A psicóloga explica que o acompanhamento profissional também pode ser procurado como forma de prevenção, para compreender sentimentos, organizar questões pessoais e encontrar formas de lidar com situações difíceis. “A gente não precisa estar com um transtorno depressivo, um transtorno de ansiedade para ir na psicóloga”, destaca.
Para quem percebe mudanças importantes em si mesmo ou em alguém próximo, uma das portas de entrada para o atendimento é a Unidade Básica de Saúde (UBS), onde a situação pode ser avaliada e, quando necessário, encaminhada para outros profissionais. Também é possível buscar diretamente atendimento psicológico.
Quando a própria pessoa não consegue dar esse primeiro passo, familiares, amigos e vizinhos podem acompanhá-la. “Vamos lá buscar ajuda, vamos lá na UBS, vamos lá marcar uma consulta. Se está difícil para você, eu vou até a cidade com você”, exemplifica Gabriela. A disposição para estar junto, segundo ela, também é uma forma concreta de cuidado.
Em situações de crise, o Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece atendimento pelo telefone 188, gratuitamente, 24 horas por dia. O serviço é voltado à escuta e ao apoio emocional. Em situações de emergência ou risco imediato, a orientação é procurar um serviço de emergência ou acionar o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), pelo 192.
Também é importante diferenciar o sofrimento esperado diante de uma situação difícil de um quadro que começa a comprometer a vida cotidiana. Uma perda na lavoura, por exemplo, naturalmente pode provocar tristeza, preocupação e ansiedade. O sinal de alerta aparece quando esses sentimentos persistem e passam a impedir a pessoa de retomar atividades, fazer planos, descansar ou manter sua rotina.
“A gente sempre pensa o quanto está impactando na vida daquela pessoa negativamente esses sintomas. Se começa a impactar negativamente, é porque há um problema ali que precisa ser tratado, que precisa ser dialogado com um profissional”, explica Gabriela.
Para agricultores familiares, cuidar da saúde mental também significa reconhecer que o bem-estar de quem produz está ligado às condições em que esse trabalho é realizado, à família e às relações comunitárias. O cuidado não está separado da rotina da propriedade. Pode começar em uma conversa durante um chimarrão, na percepção de que alguém deixou de participar da vida da comunidade ou na decisão de acompanhar um familiar até um serviço de saúde. “Procure ajuda profissional. Não precisa estar com todos esses sintomas para procurar uma psicóloga”, orienta Gabriela. Para ela, buscar apoio antes que o sofrimento se agrave também é uma forma de prevenção. “Isso é um sinal de força, sinal de coragem, é um sinal de autocuidado”, finaliza a psicóloga.




