Agroindústria familiar de Cacique Doble participa pela quarta vez da feira após conquistar três títulos consecutivos no Concurso de Produtos da Agroindústria Familiar; propriedade também passa pelo processo de implantação do método SPDH+ acompanhado pela FETRAF-RS

A história que a Adega Carrini levará à Expointer 2026 começou muito antes da primeira participação no Pavilhão da Agricultura Familiar, no ano de 2023. Em Cacique Doble, o trabalho com a uva e o vinho atravessa gerações, passou por períodos de crise, exigiu recomeços e hoje avança com a participação dos filhos no negócio. Às vésperas da quarta edição da feira, a família também vive outro processo: a implantação gradual de práticas voltadas à transição do modelo produtivo, com acompanhamento da FETRAF-RS por meio do método SPDH+.
À frente dessa trajetória está Aldemir Carrini. Ele conta que a produção de uvas e vinho faz parte da história da família desde os avós e os pais. A atividade, porém, enfrentou uma forte crise nas décadas de 1970 e 1980, quando produtores da região tiveram dificuldades para comercializar a uva e muitos acabaram erradicando os parreirais.
Em 1987, Aldemir deixou Cacique Doble e foi para Flores da Cunha, onde trabalhou justamente com parreirais. Mesmo longe da propriedade, porém, não abandonou o que hoje é o negócio da família. Nas folgas, retornava para iniciar novamente o plantio de uvas com o irmão. As primeiras uvas desse recomeço deram origem, em 1992, ao primeiro vinho produzido pela família após a retomada.
O negócio começou a ganhar maior estrutura a partir dos anos 2000 e avançou especialmente depois de 2015. A empresa foi formalmente registrada em agosto de 2022 e, no ano seguinte, participou pela primeira vez da Expointer. E a estreia surpreendeu, com um resultado que se repetiria nas duas edições seguintes: o primeiro lugar no Concurso de Produtos da Agroindústria Familiar, com o vinho de mesa seco de uva bordô da Adega Carrini.
Para Aldemir, os resultados estão ligados a uma combinação entre experiência, cuidado com a matéria-prima e qualificação. Na produção dos parreirais, a família busca controlar a quantidade de uva para priorizar a qualidade. Também investe em capacitação: os filhos realizaram cursos e já assumem parte importante das atividades. “A gente vai sempre se capacitando para ter um produto de qualidade ano após ano”, afirma.
Sucessão e novos conhecimentos

Hoje, cinco integrantes da família trabalham diretamente na atividade, além da contratação de trabalhadores em períodos de maior demanda no campo. O processo de sucessão também já está em andamento. Embora Aldemir siga acompanhando o negócio, os filhos passaram a assumir responsabilidades na condução da atividade, especialmente nas áreas ligadas à vinificação e à identificação dos produtos.
“Eu já estou passando o bastão para eles. Estou na linha de frente, mas eles dois é que estão tomando a frente das questões. A questão da vinificação também é com eles, fizeram os cursos, e eu estou mais agora na retaguarda”, conta.
A continuidade da atividade dentro da família é parte de uma trajetória construída ao longo de décadas, mas que agora também incorpora novos conhecimentos e desafios relacionados à forma de produzir.
É nesse contexto que a Adega Carrini passou a integrar o processo de implantação do SPDH+, método que vem sendo trabalhado pela FETRAF-RS como parte de uma estratégia de transição do modelo produtivo na agricultura familiar. A experiência na propriedade ainda é recente. Segundo Aldemir, a família iniciou o processo no ano passado e pretende avançar gradualmente, ampliando o uso de insumos biológicos e reduzindo a dependência de produtos químicos, sem comprometer a produção. “Estamos em processo e já percebemos resultados no que fizemos”, avalia.
A decisão também dialoga com uma preocupação que, segundo ele, já fazia parte de sua atuação junto à agricultura familiar. Ex-integrante da direção estadual da FETRAF-RS, Aldemir afirma que o debate sobre alternativas de produção e cuidado ambiental já estava presente no passado. O que faltava, segundo ele, era transformar esse debate em experiências concretas nas propriedades. “Eu sempre batia nessa tecla: até que nós não formos a campo, isso não vai funcionar. E agora isso veio. O pessoal está vindo, fazendo as visitas, e a gente vai entendendo mais como funciona essa questão”, relata, ao citar a maneira como o processo de transição do modelo produtivo vem sendo desenvolvido pela federação junto às famílias envolvidas.
Para ele, um dos diferenciais do processo é justamente o acompanhamento técnico junto aos agricultores. “A questão que a FETRAF criou agora é muito importante porque estão vindo pessoas qualificadas junto com o agricultor para ajudar a desenvolver esse projeto”, pontua. Na Adega Carrini, a implantação do SPDH+ ainda está em fase inicial e vem sendo construída a partir da realidade da propriedade, com acompanhamento técnico.
O cuidado ambiental, porém, não começou com esse processo. A adega possui um sistema de tratamento dos efluentes gerados na atividade e mantém cuidados com a arborização em uma área próxima a um curso d’água que passa perto da cantina. “Se você não cuidar da natureza, ela vai embora. Então isso a gente pensa muito: cuidar do meio ambiente. Mas também tem a questão de levar um produto de qualidade para o consumidor final, com menos agroquímicos e que o consumidor se sinta mais seguro para consumir”, afirma Aldemir.
A relação direta com os consumidores também faz parte do trabalho da família. Parte da produção é comercializada diretamente, o que, segundo ele, permite explicar como o trabalho é realizado e construir uma relação de confiança em torno dos produtos.
Expointer amplia mercado e responsabilidade

A participação na Expointer é uma parte recente da trajetória da Adega Carrini, mas já teve impacto no crescimento do negócio. A primeira participação ocorreu em 2023, um ano após o registro da empresa, e veio acompanhada da primeira premiação.
Desde então, o vinho Bordô da agroindústria conquistou três títulos consecutivos no Concurso de Produtos da Agroindústria Familiar. Para Aldemir, o reconhecimento ampliou a visibilidade da marca e ajudou a abrir novos mercados. “O crescimento foi muito grande”, resume.
A presença na feira também criou uma relação direta com consumidores de outras regiões. Segundo ele, após três participações, a família já encontra clientes que aguardam a chegada da agroindústria ao Pavilhão da Agricultura Familiar. A Adega Carrini também mantém vendas para a região de Porto Alegre, com envios por transportadora e um ponto de comercialização na Capital.
Para a Expointer deste ano, a família pretende levar três produtos para o concurso: o vinho bordô, vencedor das três edições anteriores, além de um vinho branco e outro vinho tinto. A expectativa, segundo Aldemir, é positiva, mas sem desconsiderar os demais produtores. “A gente sabe que tem produtos de qualidade, a safra foi boa. Mas sempre respeitando todos os outros, porque todo mundo que vai lá procura fazer o melhor para ter destaque.”
Os títulos anteriores, porém, também aumentam a responsabilidade com a qualidade. “Quando você é premiado, aumenta muito mais a tua responsabilidade. A pessoa vai comprar um produto premiado e tem uma expectativa, e você tem que fazer com que essa expectativa se confirme”, ressalta Carrini.
Na propriedade, os dias que antecedem a Expointer são de trabalho redobrado. A preparação para a feira acontece ao mesmo tempo em que a família precisa manter as atividades dos parreirais, em um período de poda e manutenção. “É muito corrido. Agora é época de poda e manutenção dos parreirais. Esses dias, às vésperas da feira, são voltados à preparação para a Expointer, mas a organização já vinha acontecendo há muito tempo”, conta Aldemir.
Entre a organização dos produtos para a feira, o trabalho no campo e a expectativa por mais uma participação, a Adega Carrini chega à Expointer carregando uma história de permanência e recomeços. Uma trajetória que começou com os avós e os pais, passou pela crise e pela retomada dos parreirais, ganhou espaço no mercado e agora prepara uma nova geração para conduzir o negócio.
Ao mesmo tempo, a família passa a incorporar novas experiências ao sistema produtivo. A implantação do método SPDH+, ainda em fase inicial, se soma a práticas ambientais já existentes e coloca a propriedade dentro de um processo de transição que a FETRAF-RS vem desenvolvendo junto à agricultura familiar.
Para Aldemir, a experiência de décadas na agricultura familiar também deixa uma lição sobre os desafios enfrentados no caminho: “Primeiramente, tem que olhar para o lado ambiental. E depois, aquilo que você se propõe a fazer, nunca pode desistir. Nós passamos por muitas dificuldades, mas nunca desistimos e é isso que nos trouxe até aqui!”, finaliza.




